Foi num sábado, daqueles em que eu achava que chegaria meia-noite, mas não chegariam as 22h.
A “galera das joias” estava churrascando, a uns cinco quilômetros dali do hotel, mas eu podia sentir a fumaça cinzenta trazendo o saboroso cheiro dos assados com temperos de fuzarca que prometia virar a noite até ao raiar do outro dia.
Na parede do hall tinha um relógio, de fundo branco, do tamanho de uma calota de Fenemê, com ponteiros espessos, pesados, escuros e barulhentos. Na primeira meia hora o ponteirão descia num ritmo normal, mas, pra subir, entre o 6 e o 12, parecia que ele perdia força, o ritmo diminuía e os minutos ficavam mais lentos. Nesta segunda meia-hora ele devia levar uns quarenta minutos ou mais pra subir.
E aquela sensação de cheiro de contrafilés e picanhas na brasa, saboreados com cerveja gelada e algazarra, me torturavam. Eu nem tinha almoçado naquele dia de tanta ansiedade.
O auditor tinha acabado de chegar. Estava no vestiário se aprontando para me substituir.
Nisso, o elevador desceu e, dele, saiu uma hóspede me perguntando as horas. Apontei-lhe a “calota”, e ela:
— Nossa já são quinze para as dez. Sabe onde eu encontro um restaurante vegetariano há esta hora?
“Restaurante vegetariano? Ela só pode estar de brincadeira comigo!”, pensei.
Eu estava sem a mínima condição vegetal de me concentrar em rúcula, alcachofra, chicória ou couve-flor, naquele momento. Mandei que ela fosse... num restaurante mais próximo dali. Lá, com certeza, iria encontrar um buffet tão abastecido quanto às bancas de hortaliças da Ceasa.
— Mas, esse restaurante é exclusivamente vegetariano? — ela insistiu.
— Não. Lá tem carnes também. Mas, tem um bom self service apenas de iguarias vegetarianas. Vai lá. Você vai gostar!
— Não posso nem sentir o cheiro de carnes — ela me contrariou. — Ouvi dizer que tem um restaurante especializado aqui perto. Tão natural que só serve orgânicos!
Deu-me vontade de dar-lhe o endereço da minha casa e levá-la pra comer na minha horta.
Dez em ponto. E o auditor apareceu, tirando caspas dos ombros, e deu a devida boa atenção que a moça merecia.
Fizemos a transferência de turno e saí apressado, teleguiado pelo aroma de boi e frango na brasa regado a bate-papos e garotas — que ficavam facinhas depois de uma simples rodada de caipiroska com cerveja Skol. Fui imaginando em como seria interessante se eu pudesse ver aquela coisinha tão meiga, que era aquela hóspede, nos fundos da minha horta, mordendo um pepino, uma cenoura ou uma berinjela in natura com aquela sua boquinha incitante de Sandra Bullock, que só ela sabia imitar. Podia tê-la proposto o churrasco... Pena que a boneca não comia carne!

