No registro de hóspedes do hotel, encontrávamos sobrenomes que tinha tudo a ver com a pessoa. Tinha um advogado que o sobrenome dele era “Calza”. Tinha um que se vestia mal pra burro, e o seu sobrenome era “Quadrado”. Achei interessante uma professora que assinava “Lecione” no seu sobrenome. Tinha uma outra mulher de sobrenome “Pinto” que... Bem, deixa pra lá. Porém, nada mais interessante que um hóspede que não tinha nada a ver com o seu sobrenome, mas o seu nome era bem sugestivo, devido ao seu popular semblante. Ele se chamava Jesus e comercializava adereços religiosos banhados à ouro três milésimos. Os seus cabelos nem eram tão longos assim. Mas, a barba quase ruiva e os olhos claros combinavam com o seu jeito sereno e olhar distante. Os únicos detalhes que não combinavam, com os seus gestos e com o seu nome, eram a sua baixa estatura e a barriga avantajada, que deduravam o cara, expondo que ele era um voraz simpatizante da gula e membro fervoroso do sedentarismo. Contudo, apesar disso aí, ele era um homem de sorte. Já imaginou se nestes tempos atuais, de internet banda larga e TV em alta definição, algum funcionário do hotel resolvesse vazar com essas informações? “Jesus voltou. E está hospedado aqui. É sério. A cara e os gestos não negam. E as autenticidades dos seus dados estão confirmadas no seu RG, CPF, e no dia de seu aniversário”. A tecnologia voluntária faria a notícia correr mundo, simultaneamente. O pobre Jesus contemporâneo teria que sair correndo, por paralelas, pra escapar da Via Crucis do calvário, evitando ser pisoteado pela multidão ensandecida que, aos seus calcanhares, estaria correndo ávida pra ter um autógrafo, um fio da sua barba ou um retalho da sua roupa. As adolescentes, na comissão de frente, gritariam: “Lindo, lindo!”. Seguidas pelos paparazzi e os repórteres que, abusando dos conhecidíssimos dotes proféticos e infinita sabedoria do perseguido, perguntariam: “O Brasil tem jeito? Existem mesmo vidas extraterrestres? Quando o mundo irá acabar? Há vida após a morte?” Não faltariam aquelas perguntas ridículas, destorcidas e desorganizadas: “O Corinthians ganhará a Libertadores um dia?” E aquelas femininas, mais ridículas ainda, oportunistas e pessoais: “O meu namorado anda muito estranho. Ele é gay?” Temendo pela própria segurança, ele iria desaparecer sem ter dado, ao menos, um “olá” ao vivo para o mundo, em português, latim, aramaico, ou qualquer um outro idioma — já que a humanidade teria a certeza de seu extremo domínio sobre qualquer língua universal.
Rapidamente, milhões de comunidades seriam criadas nos sites de relacionamentos pelos analfabetos internautas: “ge zuz helle voutow “ “Jezús. O pope estar”.
Sem os reis magos, os atuais reis de plantão não perderiam a chance de aparecer pregando as célebres frases: “São muitas emoções, bicho! Jesus Cristo, eu estou aqui”. E o outro: “Realmente, o meu milésimo gol, eu dedico a ele, entende?”
Passava das 22h quando o Jesus desceu — de elevador. Como sempre, caminhando vagarosamente, ele continuava com o olhar distante, como se estivesse orando. Devia estar agradecendo aos céus por estar em paz num hotel onde ninguém reparava na sua humilde personalidade e nem desconfiava que ele estivesse ali para cumprir mais uma de suas sagradas missões. Humildemente, entrou no seu Honda Accord com insulfilm e câmbio automático e foi dar umas voltas pela noite enluarada. Acho que ele foi procurar algum McDonald's para cear.

