MENTIRA TEM PERNA CURTA


Dia desses eu ia subindo a Senador Vergueiro, em Limêr-a (todo mundo sabe onde fica Limêr-a. Fica aqui, pertinho de Pir-acicaba), e vi um rapaz que reconheci logo de cara. Como sempre, vistoso, aspecto jovial... Mas, apesar disso havia um contraste: ele descia a mesma calçada apoiando-se numa bengala (igualzinha aquela que foi usada pra bater na cabeça do Zé Dirceu, lá em Brasília).
Num repente, me deu um branco — ultimamente convivo com constantes lapsos de memória. Ele parou na minha frente e me cumprimentou:
— E aí, Gilberto Candido!
Caraca!, ele lembrava o meu nome completo e eu, nem o primeiro nome dele. Pedi-lhe desculpa pela inconveniência do meu estado. E ele:
— Meu nome é Antônio. O Toninho da Engelétrica.
Conversamos um pouco mais e, como sempre falo mais de mim mesmo e quase não deixo que o outro fale, perguntei-lhe o por quê da bengala e ele disse ser um apoio pra um problema no seu pé esquerdo. Acho que era no tendão de Aquiles... Apesar de que, dizem que o ponto fraco de Aquiles nunca foi no tendão. O ponto fraco dele era o que qualquer homem — do sexo masculino — tem. E, ao longo da história, os machistas de plantão foram fazendo emendas até chegar ao tal tendão. Pois, contam alguns que, na verdade, Páris deu-lhe foi um baita chute daqueles bem dados nas suas partes baixas que o pobre Aquiles caiu, deitou, rolou, gemeu de tanta dor, agonizando até a morte.
Fiquei impressionado com a bengala que o Toninho apoiava — como se ele tivesse uma perna mais curta que a outra — e pensei em dar uma rasteira nela; assim, meio que sem querer, só pra ver se aquele apoio era realmente necessário, ou só uma frescura do Toninho que preza muito pela elegância, assim como preza pelos amigos, como o Gilberto Candido, por exemplo. Seria sacanagem de minha parte tentar derrubar o cara. Ainda mais que fui aos poucos relembrando fatos e caí na real. O Toninho era policial. Estava à paisana. Licenciado. E uma rasteira na sua bengala poderia me implicar numa voz de prisão ali mesmo.
Brincadeira, Toninho! Tudo isso foi só pra dizer que naquele dia, você e a sua bengala me fizeram lembrar um cara, consultor de semijoias e acessórios, que trabalhava no grupo que administrava um hotel, e vivia esquecendo coisas. Tinha dias que ele subia para o apartamento e esquecia a maleta dele bem no meio do saguão. Noutro, ele esquecia onde havia deixado o carro e, num outro dia ele esqueceu que era segunda; pensou que fosse domingo e não foi trabalhar. Esquisito mesmo foi um dia que ele chegou no hotel apoiando-se numa bengala e dizendo que havia torcido o pé. Esparramou-se na poltrona, leu todos os jornais e depois subiu. Esqueceu a bengala, esqueceu de mancar e esqueceu que havia nos mentido que tinha torcido o pé.