Não sou muito adepto a certas modalidades populares da internet. Mas numa certa vez me rendi à tentação no bate-papo virtual. Por coincidência, peguei o Douglas on-line — um antigo colega de hotelaria que já não me correspondia nem por e-mail mais. E, sabe como é, né? Deu-me aquela vontadezinha de saber o que ele andava aprontando.
Uma de suas primeiras perguntas zombeteiras, sem que eu tivesse me dado conta, foi: “Onde você aprendeu a desenhar?” Me enchi de orgulho e respondi: “Aprendi sozinho. Sou autodidata.” E ele: “Bem que desconfiei. Tu desenhas mal pra burro, hein?” (Ter certa intimidades com certas pessoas é foda!) E ele continuou: “E onde aprendeu a contar e escrever casos?” E eu: “Aprendi a contar casos observando o cotidiano e a coordenação de minha mãe neste contexto. E aprendi a escrevê-los lendo livros”.
Acho que o desarmei. Ele ficou sem jeito de falar mal de minha mãe e desapareceu em off.
O fato era que eu não estava mentindo. Com toda a sua simplicidade, minha mãe tinha a arte de citar personagens (reais e fictícios) numa dramaticidade shakesperiana de aproveitável conteúdo a qualquer dramaturgia contemporânea, e, num repente, transformar o mesmo roteiro num suspense que, despretensiosamente, descrevia Agatha Christie e, munida de toda a habilidade crônica que a natureza lhe deu, desviar o mesmo enredo para uma rica comédia de detalhes dimensionais com finale e gran finale.
Entre os apreciadores, fui o seguidor do best-seller sem entrelinhas que minha mãe perfilou. Cheguei a compará-la com a digníssima alma de uma Denise Stoklos — na narrativa arte cênica do monólogo Olhos Recém-Nascidos. Minha mãe tinha uma técnica ilustrativa de historiadora sem nunca ter tido o mestrado mínimo pra qualquer registro. Quem me dera tivesse a metade do talento que mamma Rosa teve. Deixo aqui minha modesta crítica literária — do crítico literário que não me dá o direito de tal autodesignação honorífica — ao tributo a minha mãe.
Mais tarde eu conheceria o escritor Mario Prata e me identifiquei com o seu fascinante sarcasmo contista e, então foi só fazer uma previsível junção do que me tornou hobby.
Desde então, os livros complementam a ordem de minha existência.
Pouco depois o Douglas voltou on-line e disse (escrevendo) que havia deixado aquela monótona vidinha de hotelaria pra trás e que não entendia como é que eu podia achar graça numa profissão tão sem graça. Dizia (redigia) que ele trocou os balcões de hotel pelas agitadas aventuras de camelô no viaduto Santa Efigênia e arredores, com vendas de bijuterias e acessórios e as inevitáveis estratégias para fugas do Rapa. Disse que se diverte muito, embora isso ainda não é bem o seu ideal, e que um dia escreverá sobre isso...

