PREZADOS AMIGOS


Uma empresa consolidada em máquinas para joias estava expandindo seus negócios aqui para a região e, alguns de seus profissionais, altamente capacitados, transferidos, provisoriamente, se hospedavam ali no hotel. Habitualmente, viajavam na sexta-feira, após o expediente, para a cidade natal, e retornavam no domingo à noite. Houve um desses fins de semana que, por um motivo muito óbvio, um deles não viajou: sábado era dia de Inter de Limeira X Corinthians, no Limeirão. Era um confronto que prometia. A força da Inter, atual campeã Paulista, versus a eterna tradição da força corintiana.
Após o jogo, retornando ao hotel, o corintiano demonstrou que estava menos preocupado com os lances da partida, preferindo comentar mais sobre o corre-corre e quebra-quebra que estourou nas arquibancadas:
— Ainda bem que eu não sou de briga — dizia ele. — Muito pelo contrário, enquanto os baderneiros corriam para um lado das arquibancadas, eu ia correndo para o outro lado.
E alguém o questionou:
— Ora, mas se as arquibancadas circundam totalmente o estádio, e você corresse para um lado e os brigões para o outro, fatalmente vocês iriam bater de frente em algum ponto da mesma.
O corintiano coçou a cabeça, fechou um olho e exclamou:
— Ih, é mesmo!

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Entre esses amigos aí, os que não poderiam faltar eram os noveleiros. Assistir novelas, para uns, era um sacerdócio. Uma das novelas que agitava essa galera naquela ocasião era uma que — nem me recordo mais o nome — era protagonizada pelo Humberto Martins que contracenava com a Viviane Pasmanter. O Humberto era um peão de montaria, dos bons. A Viviane era a mocinha apaixonada, casada com o Humberto, e que ficava em casa triste, carente e fiel — só em novelas mesmo! — a espera do marido que vivia mais preocupado com os bois e os cavalos da fazenda e dos rodeios, que com os carinhos que andava negando pra mulher mal-amada. Os noveleiros não se conformavam vendo tamanho sofrimento da moça. Diziam que o Humberto era muito ruim, mas tão ruim que chegava a ser bom. E devia ser muito bom mesmo. Ele era mais um, entre tantos atores, que fazia o público noveleiro confundir, ignorantemente, o personagem com o Humberto da vida real.
Eis que, depois de mais um dia de intensa dedicação aos animais o (ator) Humberto aparece em casa, e a mocinha Viviane se derrete toda, recebendo-o com beijos e abraços. Eles vão para a cama, se deitam lado a lado e, na hora do thiathiaca na buthiaca ele se vira para o lado, diz que está muito cansado, dispensa a sua fogosa esposa e dorme. Fiquei sabendo naquela mesma noite que aquilo foi a gota d'água: um deles me disse que um dos amigos telespectadores, torcendo pela felicidade da mocinha, se levantou, saiu do apartamento, batendo a porta, puto da vida com aquela cena inesperada, e soltando toda a sua indignação:
— Na hora de montar no boi, ele monta. Mas na hora de montar na vaca, ele vira pro lado e dorme? Esse cara ainda vai perder essa mulher. Ah se vai!

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Um deles, mais falante, me disse que antes de negociar a estadia deles naquele hotel, a empresa os havia deixado, na primeira semana, num outro hotel localizado no centro da cidade. Fez várias comparações entre estes dois, sempre dando pontos positivos pra este atual. Jogando conversa fora com detalhes triviais, disse, por exemplo, que o suco de laranja do nosso hotel
era muito bom, por ser natural. E que o suco de laranja servido no hotel do centro não era lá essas coisas, por ser muito aguado.
E eu lhe perguntei:
— Pouco açúcar?
E ele:
— Não. Muita água.