VIDA DE CABOCLO


No hotel hospedou-se, uma empresária quarentona e seu irmão, que chegou carregando duas malas, e que demonstrava ser um pouco mais velho do que ela. Ele tinha um jeitão simplório: olhava de soslaio, usava chapéu e uma calça presa por um cinto na altura do umbigo. Ela, que por sua vez, falava com ele sempre em voz alta e com certo ar de desprezo, pegou a chave do seu single e pediu pra ele subir com as duas malas, no que o mesmo avisou:
— Vou ficar aqui embaixo um pouquinho pra pitar um cigarro. Depois eu subo.
— Não vá fumar cigarro de palha. Fume um de papel — ela ordenou.
Ele tomou um cafezinho preto, pediu um cinzeiro, relaxou-se na poltrona e pitou o seu cigarro — de papel.
Depois foi lá fora e pigarreou. Voltou e, meio desacorçoado, ficou olhando para as duas malas. Pegou a sua chave, juntou apenas a mala menor e nem tocou na outra, que acabou sendo levada pelo mensageiro, que chegava ao hotel dez minutos depois pra dar início ao seu batente.
Passou um pedaço e o caboclo desceu. Olhou para o mensageiro e lhe perguntou:
— Foi você que levou os trem da minha irmã, não foi? Estava um chumbo, não estava?
— Um pouquinho... — respondeu o mensageiro.
— A minha irmã é muito perrengue — alfinetou o matuto — diz que tem problema na coluna e não pode carregar peso. Tudo mentira. Ela pensa que eu sou empregado dela e vive querendo tacá na minha bunda, principalmente quando ela tá de chico. Mas eu procuro sempre ficar esperto e ando tirando o meu da reta.
Contou ainda que a mala dela, além de ser imensa, estava abarrotada de pronta-entregas de folheados. E que eram sócios, mas que a sociedade estava capengando. Ele queria mesmo era investir a parte do seu dinheiro em produtos agrícolas.
Ele deu uma olhada de lado, fazendo menção de que não entendia muito bem o porquê de o mensageiro se 
divertir tanto com a sua história, e deve ter achado que o mesmo caçoava da sua cara. Ajeitou o chapéu na cabeça, passou as costas da mão pela boca cheia d'água, e deixou um recado antes de sair:
— Se ela perguntar por mim, diz que fui ali comprar uns queijos meia cura e não demoro.
Entrou no bar ao lado e logo já estava de volta — sem os queijos.
Também, pudera! Qualquer apreciador de uma boa caninha já deveria saber que não se acharia queijo meia cura pra comprar num boteco qualquer por ali.

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E como diz o Rolando Boldrin: “Um causo puxa o outro”.
Quando falamos na cultura caipira do nosso país, de imediato, a prosa já nos remete a um pensamento que trilha caminhos geralmente envoltos de pessoas simples, bondosas, hospitaleiras, enraizadas... E essa é a pura verdade.
Normalmente, tinham hóspedes que davam entrada no hotel antes das 14h — horário de nossa troca de turno. Às vezes, nós, do 2º turno, nem víamos as caras dessas pessoas. Às vezes, somente as víamos de tardezinha, ou à noite.
Um destes hóspedes desceu, lá pelas 21h, e parou no hall; deu uma olhada pros lados, não nos cumprimentou e continuou quieto. Adicionando este trejeito ao seu modo de andar e de se vestir, o resultado poderia ser o de uma total falta de evidência carismática. A minha colega me fez aquela cara de quem não se simpatizou com o homem e eu fiquei só observando. Dali a instantes ele dirigiu-se à recepção e perguntou-nos:
— Já tenho algumas indicações provindas de pré-contatos. Mas, vocês também saberiam me indicar algum fabricante de correntaria, bem acabada e com precinho bom por aqui? Compro no atacado.
Demos-lhe algumas pistas, e ele:
— Muito obrigado e, boa noite pra vocês.
Parou, coçou a cabeça, virou e pediu-nos:
— Vocês têm dentifrício aí?
A minha colega abriu um sorriso, pegou um creme dental pra ele, e debitou-lhe na conta, enquanto este novamente agradecia.
Ele subiu, e deixou-nos com uma única certeza: se a imensa riqueza da cultura caipira não tem horizontes, fica impossível descrevê-la por completo, nem que seja com milhões e milhões de palavras. Porém, foi de uma singularidade incrível como uma só palavra pronunciada por um legítimo caboclo, foi capaz de retratar a prezada identidade que ele representava, abrindo-lhe portas de sinceras boas-vindas, no momento em que este exprimiu aquela palavra do seu genuíno vocabulário como se fosse uma senha ou um código do infalível passaporte que lhe acompanharia aonde quer que ele fosse.
E no caso do caboclo aí, a senha de seu passaporte foi: dentifrício.